quarta-feira, 13 de julho de 2016

Às vezes vestimos o passado.


Não vivo muito o passado, como já disse aqui, tento sempre esquece-lo, não todo porque algum  foi muito bom. 
Não o vivo muito, até porque já lá vai.

 Mas às vezes penso e reflito no que foi e no que aprendi com ele.

Hoje trago um poema de uma sra que gosto muito e que me identifico com o que ela escreve.

E principalmente isto:

às vezes despimo-nos de tudo e continuamos
a sufocar debaixo do manto onde enfiámos
a vida inteira
o que fomos o que somos e o que
poderíamos ainda ser.

É verdade!

Quantas vezes, “escondida” por baixo do manto, me esqueço o que fui, o que sou e o que poderei ser.

O que ficou por fazer e dizer, é a principal causa de às vezes "vestir" o passado. 



às vezes vestimos o passado

às vezes vestimo-nos de branco
no engano da pureza que esquecemos
nos bolsos da infância
às vezes vestimo-nos de cores garridas
a esconder o cinzento que nos entrou nas unhas
com que escavámos a adolescência
às vezes vestimo-nos de negro
moda decretada para o luto moda ou vaidade
a renegar a luz que nos trouxe ao mundo
às vezes despimo-nos de roupa
mantemos a pele bem chegada ao coração
o cabelo a enfeitar o cérebro
e as unhas a cobrir a sábia polpa dos dedos
às vezes despimo-nos de tudo e continuamos
a sufocar debaixo do manto onde enfiámos
a vida inteira
o que fomos o que somos e o que
poderíamos ainda ser.


Rosário Ferreira Alves, in lunaris 2016

8 comentários:

  1. E raramente somos felizes...se vestimos esse passado!!!
    Bj

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    1. Verdade Maria mas há passado que teima em não o querer ser.
      Beijinhos

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  2. Se a gente não desapega do passado, acabamos não vivendo o presente. Adorei o poema, muito bem escrito :)

    Beijinhos
    nosdefada.com

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    1. Há coisas que nunca esquecem Amanda, coisas boas coisas más. Não se esquece mas guardo o para mim e vivo a vida como se o amanhã não existisse.

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